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O exemplo que vem do oriente

Cônsul-adjunto fala sobre a educação japonesa

Brasil e Japão não ficam distantes apenas no mapa. O mais importante país do mundo oriental, ao lado da China, também fica muito longe de nós quando o assunto é nível da formação educacional. Na edição de 2006 do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), a média dos alunos japoneses na área de Ciências, por exemplo, foi a sétima maior, ao passo que os brasileiros ficaram na 52a posição em um ranking de 57 países. O sucesso do modelo de desenvolvimento nipônico, porém, não ocorreu da noite para o dia. Para reverter as dificuldades de um traumático pós-guerra, a partir de 1945 o país optou, entre outras medidas, por investir alto em educação para ter mão-de-obra capaz de agregar valor ao que se produzia e, com isto, superar as limitações de uma nação sem recursos naturais. Do ponto de vista educacional, o Japão tem outras diferenças significativas na comparação com o Brasil. No país oriental, quase todos os estudantes concluem o equivalente ao ensino fundamental e médio brasileiros, segundo o cônsul-geral adjunto do Japão no Rio de Janeiro, Hajime Kimura. Ele ainda cita outra diferença marcante: por lá, o ensino público nem sempre é gratuito. "A partir do equivalente ao ensino médio, quem quiser estudar, tem de pagar, mesmo nas escolas públicas. O mesmo vale para as faculdades. No caso dos que têm dificuldades financeiras, o governo ajuda", explica Hajime Kimura.

Entre as atividades mantidas pelo consulado, está a divulgação de informações sobre o Japão, por meio de um centro cultural, que também tem programação para escolas. O consulado possui, ainda, um programa de intercâmbio estudantil, que permite a brasileiros se candidatar a vagas em universidades e escolas profissionalizantes japonesas, com bolsas de até 150 mil ienes. Segundo o cônsul-geral adjunto, além da chance de adquirir ou complementar uma formação profissional com uma bolsa de estudos, a atividade vale como experiência de vida. "Estudar em um país estrangeiro nos faz passar por muitos desafios, do ponto de vista emocional, econômico, físico. E cada vez que este estudante necessita enfrentar e ultrapassar estas dificuldades, isto o fortalece."

Folha Dirigida - No século XX, o mundo assistiu a um crescimento vertiginoso da economia japonesa, a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. Qual foi o papel dos investimentos em educação neste processo?

Hajime Kimura - Foi essencial. Hoje, quase todos completam o equivalente ao ensino fundamental no Brasil. O mesmo vale para o equivalente ao ensino médio. E me parece que, no ensino superior, a taxa de acesso é de 50%. E o investimento na ampliação do acesso à educação foi fundamental, sobretudo porque o Japão não é um país que se caracteriza pelo acesso a recursos naturais, ao contrário do Brasil, por exemplo. Tínhamos de crescer com base no comércio que, para ser fortalecido, necessitava de um investimento que viabilizasse uma revolução tecnológica capaz de agregar valor aos produtos que produzíssemos. E a educação é essencial para isto. Nações que investiram maciçamente na área de Educação têm crescido bastante, a exemplo do que ocorreu com o Japão. São exemplos a Coreia do Sul e outros países asiáticos como Formosa, Taiwan e a própria China.

O que foi priorizado em termos de investimentos em educação?

Foi priorizado o investimento como um todo em Educação. No ensino fundamental, o governo buscou melhorar a qualidade das escolas. Além disso, foram feitos muitos investimentos nas universidades e centros de pesquisa. Outra medida que destaco ocorreu em 1972, quando o então primeiro-ministro aumentou o salário dos professores da Educação Básica, justamente para melhorar o nível da Educação. Ocorreu um processo de expansão do acesso ao ensino. Qualquer pessoa podia entrar e ter educação superior se quisesse. Eu, por exemplo, estudei o equivalente ao ensino médio no Brasil e cursei a universidade com bolsa de estudo do governo. E, naquela época, havia dois tipos de bolsa: especial e comum.

Como funciona este sistema de bolsa de estudos?

Quem tem mais dificuldade financeira pode ganhar a bolsa de estudo especial, que é maior. E quando estudamos em faculdade particular, recebemos mais, pois a mensalidade é maior. Nos casos de universidades públicas nacionais ou de províncias, as bolsas de estudo são mais baratas, pois elas cobram menos.

No Japão, é cobrada mensalidade em universidade pública?

Sim. Claro. Qualquer universidade tem custo. Educação é gratuita é para o equivalente, no Brasil, ao ensino fundamental. A partir do equivalente ao ensino médio, quem quiser estudar, tem de pagar, mesmo nas escolas públicas. O mesmo vale para as faculdades. E, no caso dos que têm dificuldades financeiras, o governo ajuda.

No Brasil, frequentemente discute-se que, se nas universidades públicas fosse cobrada mensalidade daqueles que podem pagar, as instituições teriam condições de oferecer melhor ensino e abrir mais vagas. Esta é a filosofia adotada no Japão?

Isto depende de cada governo. Mas é preciso ter em mente que o ensino tem custo e que alguém tem de pagar. Quando a Educação é gratuita, os que arcam com os impostos é que pagam. É apenas uma diferença de filosofia. Não criticamos quem faz diferente.

E quanto à oferta no ensino superior: é distribuída pelas regiões ou centralizada?

No Japão, há cerca de 50 províncias e cada uma delas tem uma universidade nacional. E algumas cidades têm universidade pública, como Yokohama, que tem uma universidade municipal bastante conceituada. E algumas províncias têm duas, três universidades nacionais, além, claro, das particulares. Aqui no Brasil, também vejo que vem aumentando muito o número de universidades. Como também vejo, nos dois países, um movimento no qual os jovens percebem que cursar uma graduação não é o único caminho. Até alguns anos atrás, entrar nas melhores faculdades era o principal objetivo dos alunos japoneses que concluíam o equivalente ao ensino médio brasileiro. Agora não. Muitos buscam outras formas, diferentes do ingresso no ensino superior, de encontrar seus próprios caminhos para garantir uma vida melhor. Por exemplo, quem gosta de cozinha pode entrar em uma escola profissionalizante de Culinária e se formar nesta área. E muitos fazem sucesso assim, não só no Japão, como aqui no Brasil. Então, entrar na faculdade virou uma das opções.

Qual o tratamento dado aos professores, no Japão? Como governo e sociedade veem o papel deste profissional?

Na minha época, há 40 anos, os professores eram absolutos. A posição deles era absoluta. Tínhamos que obedecer qualquer ordem deles. E os pais também os respeitavam muito. Então, nós, alunos, e os país, fazíamos o máximo para facilitar o trabalho deles. Atualmente, parece que este respeito diminuiu um pouco. Até porque, alunos e pais começaram a achar que nem sempre os professores estão absolutamente corretos. Então, ficou mais democratizado. Mas a sociedade japonesa ainda mantém um respeito muito grande por seus professores. É uma profissão que ainda possui um prestígio social muito grande no Japão.

No Brasil, uma das principais discussões gira em torno dos baixos salários dos professores. No Japão, a remuneração destes profissionais está próxima da que é paga às categorias que ganham mais?

Funcionários públicos, em geral, ganham menos que as pessoas que atuam no setor privado, nas diferentes áreas. Há três tipos de funcionários públicos: os municipais, os provinciais e os nacionais. Quem ganha mais é o funcionário municipal, depois o provincial e depois o nacional. Isto para manter o equilíbrio entre os níveis. Até porque, se o funcionário nacional ganhar mais que o municipal, todos vão para este segmento e as prefeituras não podem contratar os melhores funcionários. Agora, professores, em geral, são provinciais. Assim, costumam ganham melhor que outras categorias de profissionais das províncias e, por conseqüência, que os profissionais nacionais.

No caso do Brasil, especialistas ressaltam que, em função dos baixos salários pagos aos profissionais do magistério, as pessoas que têm melhor formação na Educação Básica buscam outras profissões. Com isto, seguem o magistério, em geral, os que têm base mais frágil. E no Japão? Há uma estrutura capaz de recrutar aqueles que têm melhor formação?

Esta tese me parece um pouco estranha porque não nos tornamos professores por causa do salário. Eles ganham melhor que outras categorias profissionais das províncias, mas não é por causa disto que as pessoas procuram esta profissão. Quem gosta de ensinar, quem gosta de Educação, é que se torna professor. Não é por causa do salário. Mas, repito, os salários são bons. Garantimos um bom salário, até para propiciar um bom nível de educação aos professores. Mas, o fundamental, é o interesse na missão de ensinar.

O Consulado Geral do Japão no Rio de Janeiro mantém um Centro Cultural. Há alguma programação voltada para escolas?

Temos feito cursos sobre o Japão, voltados para estudantes dos ensino fundamental e médio, que ministramos também em escolas. Neste curso, exibimos um filme sobre aspectos como Educação, História, Economia, entre outras áreas, naturalmente, dependendo da faixa etária dos estudantes. Muitas vezes, as crianças sequer sabem onde fica o Japão, quanto mais sobre o seu sistema político, o tamanho da economia, características da população, traços culturais, entre outras coisas.

No ano retrasado, foi comemorado o centenário do início da imigração japonesa no Brasil. Como o senhor avalia esta integração entre Brasil e Japão e o que o consulado japonês tem feito para fortalecê-la?

Aprofundou-se muito. A primeira vez em que vim ao Brasil foi em 1984. Comparando-se com o período atual, as relações entre os países melhoraram muito nestes 25 anos. Nas décadas de 60 e 70, foram feitos muitos investimentos japoneses no Brasil. Foram grandes projetos, como a Construção da Usiminas e da Siderúrgica de Tubarão, por exemplo. Só que, na década de 80, quando a economia brasileira entrou em recessão, muitas empresas japonesas foram embora. Na década de 90, foi a vez da economia japonesa mergulhar em uma crise e, mais uma vez, muitas empresas japonesas foram embora do país. Mas, a partir do início dos anos 2000, a economia brasileira e a japonesa melhoraram, o que atraiu, novamente, investimentos de empresas japonesas. Mas, nos anos 80 e 90, não havia este intercâmbio cultural que existe hoje. Por isto, quando as economias dos países caíram, a interação entre eles também sofreu uma queda. Agora, não. Quando há uma interação forte do ponto de vista cultural, as relações ocorrem em um patamar totalmente diferente. Hoje, o Brasil é o país do mundo com a maior comunidade japonesa. E, por outro lado, temos uma colônia brasileira muito grande no Japão, com cerca de 300 mil pessoas. É a terceira maior comunidade estrangeira no país, ficando atrás, apenas, da chinesa e da coreana. E isto melhora nossa relação. Ela fica muito mais aprofundada, pois os governos precisam colaborar muito entre si para solucionar as eventuais demandas deste contingente em cada país. E, por causa da existência de uma comunidade brasileira tão grande no Japão, os japoneses passaram a conhecer bem melhor o Brasil. Há cidades em que 10% da população é formada por brasileiros.

Há boas oportunidades de intercâmbio estudantil no Japão?

Há várias universidades brasileiras importantes que mantêm programas de intercâmbio com instituições japonesas. Isto sem falar no que mantemos, no Consulado. As faculdades, por conta própria, e o governo oferecem suas bolsas de estudos. No caso do governo, há diferentes modalidades, porém, a mais procurada é a vinculada à pesquisa, pela qual o beneficiado, em nível de mestrado ou doutorado, dependendo do caso, faz pesquisas lá no Japão. Neste caso, é oferecida uma ajuda financeira em torno de 150 mil ienes por ano.

Como funciona este programa de intercâmbio do Consulado?

Temos bolsas para graduação e para escolas técnicas profissionalizantes. Em todas, o valor anual é de 125 mil ienes. As bolsas de pesquisa científica, como disse, são destinadas para pessoas que têm mestrado e doutorado. No caso das bolsas de graduação, os contemplados entram no curso universitário mesmo. Mas, para entrar, tem que fazer um concurso, semelhante ao vestibular daqui. A duração é semelhante à dos cursos no Brasil: de quatro a cinco anos. Em relação a cursos profissionalizantes, as bolsas duram, em geral, de dois a três anos. Da mesma forma, recebem o valor enquanto estudam. Há várias opções de curso, entre elas Moda, Música, Artes, Design e Enfermagem.

O que tem a ganhar um estudante que decida fazer intercâmbio no Japão?

Qualquer um pode fazer estes mesmos cursos, de graduação ou profissionalizantes, aqui no Brasil. Só que estudar esta mesma coisa, no exterior, é diferente. Os estudantes têm acesso não só ao conhecimento, mas à experiência de vida, o que, a meu ver, também é muito importante. Estudar em um país estrangeiro nos faz passar por muitos desafios do ponto de vista emocional, econômico, físico. E cada vez que este estudante necessita enfrentar e ultrapassar estas dificuldades, isto o fortalece. Frequentemente, temos oportunidade de falar com pessoas que fizeram intercâmbios e todas dizem que foi a melhor experiência da vida deles. Até por causa do contato com diferentes culturas. Mesmo no Japão, o contato não é só com japoneses. Universidades que ficam em cidades importantes, como Tóquio ou Kioto, são centros de referência e, por isso, recebem pessoas de vários países. Nestes cursos, todos os candidatos têm de estudar japonês nos primeiros seis meses. Por isto, os estudantes do mundo inteiro aprendem o japonês juntos e, portanto, têm oportunidade de conviver e fazer amizades. O que é mais um dado interessante.

Fonte: Folha Dirigida, 29/06/2010 - Rio de Janeiro RJ